A gastroparesia é uma condição em que o esvaziamento do estômago fica significativamente mais lento do que o normal, sem que haja uma obstrução mecânica que explique esse atraso. O estômago, que deveria esvaziar seu conteúdo para o intestino delgado em poucas horas, passa a reter os alimentos por tempo prolongado, causando uma série de sintomas desconfortáveis. A gastroparesia é uma doença frequentemente subdiagnosticada e pode impactar significativamente a qualidade de vida dos pacientes.
O Que Causa a Gastroparesia?
O esvaziamento gástrico normal depende de contrações coordenadas dos músculos do estômago, controladas pelo sistema nervoso autônomo. Quando esse controle nervoso ou muscular é comprometido, o esvaziamento se torna lento ou ineficiente.
A causa mais comum de gastroparesia é o diabetes mellitus (gastroparesia diabética), que pode lesar o nervo vago — responsável por controlar os movimentos do estômago — como complicação da neuropatia diabética autônoma. A gastroparesia diabética afeta de 30 a 50% dos pacientes com diabetes de longa data, sendo mais frequente em mulheres e em portadores de diabetes tipo 1.
Outras causas importantes incluem: cirurgias abdominais prévias (especialmente cirurgias no estômago, esôfago ou vagotomia), doenças do tecido conjuntivo como esclerodermia e lúpus, hipotireoidismo, infecções virais (gastroparesia pós-viral), uso crônico de medicamentos que retardam o esvaziamento gástrico (como opioides, anticolinérgicos e agonistas de GLP-1) e distúrbios alimentares. Em uma parcela significativa dos casos (30-40%), nenhuma causa é identificada, sendo a condição classificada como gastroparesia idiopática.
Sintomas da Gastroparesia
Os sintomas da gastroparesia resultam diretamente do atraso no esvaziamento gástrico. Os mais comuns são: náuseas persistentes (frequentemente o sintoma mais incapacitante), vômitos — especialmente de alimentos ingeridos horas antes —, sensação precoce de saciedade (sentir-se cheio logo nos primeiros garfos da refeição), distensão abdominal e desconforto após as refeições, azia e regurgitação e perda de peso e desnutrição nos casos mais graves.
Nos pacientes diabéticos, a gastroparesia pode dificultar o controle glicêmico, pois a absorção irregular de nutrientes torna imprevisível a resposta à insulina, aumentando o risco de hipoglicemias e hiperglicemias.
Como é Feito o Diagnóstico da Gastroparesia?
O diagnóstico de gastroparesia requer a demonstração objetiva do retardo no esvaziamento gástrico na ausência de obstrução mecânica.
O exame padrão-ouro para o diagnóstico é a cintilografia do esvaziamento gástrico, um exame de medicina nuclear no qual o paciente ingere uma refeição marcada com um isótopo radioativo. A velocidade com que o estômago esvazia esse alimento é monitorada por câmeras de cintilação ao longo de 4 horas. Outros exames que podem ser utilizados incluem a cápsula de motilidade sem fio (SmartPill), que registra a pressão, temperatura e pH ao longo do trato digestivo, e a endoscopia digestiva alta, que é realizada para afastar obstrução mecânica e pode revelar resíduos alimentares no estômago em jejum.
Tratamento da Gastroparesia
O tratamento da gastroparesia é multidisciplinar e envolve modificações dietéticas, controle das doenças de base, medicamentos e, em casos refratários, procedimentos endoscópicos ou cirúrgicos.
Modificações dietéticas: Refeições menores e mais frequentes (6 a 8 por dia), baixas em gordura e fibras, com preferência por alimentos de fácil digestão. Em casos graves, pode ser necessário o uso de dieta líquida ou suporte nutricional por sonda.
Medicamentos pró-cinéticos: A metoclopramida e a domperidona são os medicamentos mais utilizados para estimular a motilidade gástrica. A eritromicina em baixas doses também tem efeito pró-cinético. A escolha do medicamento considera a eficácia, os efeitos colaterais e as condições do paciente.
Procedimentos endoscópicos: A piloromiotomia endoscópica peroral (POP ou G-POEM) é um procedimento minimamente invasivo que consiste em seccionar o músculo piloro por via endoscópica, facilitando o esvaziamento gástrico. É uma opção para casos refratários ao tratamento clínico.
Se você apresenta náuseas persistentes, vômitos frequentes, distensão abdominal após as refeições ou dificuldades no controle do diabetes, consulte um gastroenterologista para avaliação. Para mais informações sobre diagnóstico de doenças do estômago, acesse nossa página de endoscopia digestiva.
Para referências sobre gastroparesia e distúrbios da motilidade gastrointestinal, acesse o portal da Sociedade Brasileira de Gastroenterologia.